quinta-feira, 15 de setembro de 2011

O Superintendente da 4ª SRPRF/MG


o Inspetor Davi Stanley Bomfim Dias,foi agraciado nesta segunda-feira, dia 12/09/2011, com a tradicional Medalha Presidente Juscelino Kubitschek, concedida pelo governo do Estado de Minas Gerais. Durante a solenidade, o governador Antonio Anastasia, ressaltou a importância do ex-presidente para o desenvolvimento do país e o exemplo de coragem e espírito democrático deixado por ele.
   A entrega da Medalha JK é realizada anualmente no dia do aniversário do ex-presidente, que nasceu na cidade mineira de Diamantina em 1902. O ano de 2011 marca o 60º aniversário da posse de Juscelino como governador de Minas Gerais.

domingo, 11 de setembro de 2011

10 ANOS SE PASSARAM...









... E O PRIMEIRO HERÓI A CHEGAR FOI UM POLICIAL PORTUÁRIO.

Dois séculos de terrorismo

O moderno uso da violência como arma política não é uma invenção do fundamentalismo islâmico ou do grupo de Bin Laden. A prática remonta à Revolução Francesa e foi assumindo diversas faces ao longo dos últimos 200 anos 

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por Osvaldo Coggiola
Há quem diga que vivemos hoje uma “era do terrorismo”. Artigos e livros são publicados, em profusão, analisando até a “filosofia” do terror. Em todas as áreas do conhecimento, surgem especialistas nas mais diversas modalidades do fenômeno: militar, bacteriológico, econômico, político, jurídico e até familiar. Eleito inimigo número um da civilização, no seu uso atual o termo designa uma atividade que seria um fim em si mesmo, desvinculado de qualquer outro objetivo que não o da sua própria execução. O dicionário #Aurélio# apresenta duas definições para o vocábulo. Segundo a primeira, terrorismo seria um “modo de coagir, ameaçar ou influenciar outras pessoas, ou de impor-lhes a vontade pelo uso sistemático do terror”. De acordo com a segunda, seria uma “forma de ação política que combate o poder estabelecido mediante o emprego da violência”.

Na contra-corrente de tais definições, alguns autores afirmam que o terrorismo não é senão a política auxiliada pela violência, de modo exclusivo ou não. De um modo geral, afirma-se que é uma tática de luta contra a ordem estabelecida, mas o próprio poder pode ser terrorista quando faz uso dos mesmos meios, a violência, para atingir seus fins. Com definição tão ampla, é possível detectar formas de terrorismo ao longo de toda a história humana. Os processos “contra a bruxaria” na Europa Moderna, que afetaram um milhão de pessoas entre 1484 e 1739 e espalharam um clima de denúncias, suspeição e terror por cidades e aldeias do Velho Continente, se encaixariam perfeitamente nessa categoria. Tais processos estão na origem da popular expressão “caça às bruxas”.

O conceito de “terrorismo” no seu sentido contemporâneo, porém, surgiu com a Revolução Francesa. O período compreendido entre setembro de 1793 e julho de 1794, caracterizado pela violência e as execuções utilizadas pelos revolucionários para enfrentar as forças da reação, deu origem ao termo, que apareceu pela primeira vez em 1798 no suplemento do Dicionário da Academia Francesa. A expressão passou então a ser utilizada para caracterizar o extermínio de pessoas de oposição ao regime e a violência promovida pela autoridade governamental instituída.

O “Terror”, em sentido político, ficou associado à revolução (democrática). Para Marx, “o Terror na França nada mais foi do que o método plebeu para acabar com os inimigos da burguesia, o absolutismo, o feudalismo, e o espírito pequeno-burguês”. Referindo-se à derrota da revolução de 1848 na Áustria, o pensador alemão afirmou que “os massacres sem resultados nas jornadas de junho e outubro, a fastidiosa festa expiatória em fevereiro e março, o canibalismo da contra-revolução, convencerão os povos de que para abreviar, simplificar e concentrar a agonia mortífera da velha sociedade só existe um meio: o terrorismo revolucionário”.



Na segunda metade do século XIX, o terrorismo foi associado à ação dos grupos anarquistas, também chamados de niilistas, que adotavam a violência como estratégia política e foram muito ativos tanto em paises europeus como em outros continentes. Não por acaso, a atividade terrorista foi especialmente importante na Rússia czarista, país marcado por uma forte opressão social onde o regime autocrático interditava toda ação ou expressão política.

O nível de repressão na sociedade russa era tamanho que nem mesmo as reformas promovidas pelo czar Alexandre II entre 1861 e 1865 foram suficientes para aliviar o clima de descontentamento de amplos setores sociais. Muito pelo contrário. As medidas que aboliram a servidão da gleba, criaram as câmaras municipais (zemstvos) e atenuaram a censura na imprensa e nas universidades desagradaram a todos: à nobreza porque tornou os camponeses "insolentes"; a estes, porque tiveram que se endividar para obter sua autonomia; e à intelligentsia, que considerou as reformas insuficientemente profundas.

Foi em meio a este clima de insatisfação que surgiu, entre as camadas esclarecidas da população, a primeira tentativa de derrubar o regime por meio de um movimento não-palaciano. Os populistas (narodniks, em russo), que batizaram seu movimento de "Terra e Liberdade", definiram o objetivo de convencer a massa rural a sublevar-se contra o czar.O fracasso dessa tentativa, e a repressão que se seguiu, levou-os a se embrenharem no caminho do terrorismo político. Acreditavam que abatendo as figuras exponenciais do regime czarista provocariam a rebelião popular. O Catecismo do revolucionário, escrito pelos russos Netchaev e Bakunin, se converteu em um breviário ideológico do terrorismo político. O revolucionário era definido como um morto em sursis, uma pessoa que já tinha renunciado à vida em prol da revolução, o que tornava “normal”, por exemplo, um atentado suicida.

A Rússia virou a pátria do terrorismo. O açoitamento dos presos políticos levou Vera Zasulich a expressar a indignação geral com um atentado contra o general Trepov. Seu exemplo repercutiu entre a intelectualidade revolucionária, desprovida do apoio das massas. O que começou como um ato de vingança perpetrado de forma inconsciente se transformou em um verdadeiro sistema entre 1879 e 1881. Assim como na Rússia, as ondas de atentados anarquistas na Europa Ocidental e na América do Norte também se produziram depois de alguma atrocidade cometida pelo governo, como fuzilamentos de grevistas ou execuções de opositores políticos. A fonte psicológica mais importante do terrorismo era o sentimento de vingança.


Já exilado por Stálin, Trotsky continuava a defender o uso do terrorismo em determinadas circunstâncias: “Nossos inimigos de classe têm o costume de queixar-se de nosso terrorismo. Eles gostariam de pôr o rótulo de terrorismo em todas as ações do proletariado dirigidas contra os interesses do inimigo de classe. Para eles, o método principal de terrorismo é a greve (...) Se por terrorismo se entende qualquer coisa que atemorize o prejudique o inimigo, então a luta de classes não é outra coisa senão terrorismo. E o único que resta considerar é se os políticos burgueses têm o direito de proclamar sua indignação moral acerca do terrorismo proletário, quando todo seu aparato estatal, com suas leis, polícia e exército não é senão um instrumento do terror capitalista”.

No mesmo texto, porém, Trotsky reafirmava a oposição do marxismo ao terrorismo individual: “Que um atentado terrorista, mesmo um que obtenha "êxito", crie confusão na classe dominante, depende da situação política concreta. A confusão terá vida curta; o estado capitalista não se baseia em ministros de estado e não é eliminado com o desaparecimento deles. As classes a que servem sempre encontrarão pessoas para substituí-los; o mecanismo permanece intacto e em funcionamento. Todavia, a desordem que produz um atentado terrorista nas filas da classe operária é muito mais profunda. Se para alcançar os objetivos basta armar-se com uma pistola, para que serve esforçar-se na luta de classes? Para nós o terror individual é inadmissível precisamente porque apequena o papel das massas em sua própria consciência, as faz aceitar sua impotência e volta seus olhos e esperanças para o grande vingador e libertador que algum dia virá cumprir sua missão”.

Nas décadas do primeiro pós-guerra, o terror foi o principal método de ação do nazi –fascismo europeu, cada vez mais generosamente apoiado pelas classes empresariais, que pensavam assim se libertar do “fantasma do comunismo”. Na URSS “comunista” de Stálin, porém, um sistema de terror foi montado pela burocracia governante, que primeiro exterminou toda a velha geração bolchevique e, depois, toda manifestação de oposição política e social. Nas vésperas e durante a II Guerra Mundial, sistemas totalitários, baseados num verdadeiro terrorismo de Estado, varriam toda a Europa, desde a Espanha até a Sibéria. Era, nas palavras de Victor Serge, “meia-noite no século”.

A escalada de violência culminou com um ato terrorista inédito: em 6 de agosto de 1945 um bombardeiro norte-americano lançou sobre a cidade japonesa de Hiroshima a Little boy, a primeira bomba atômica da história. A explosão devastou 10 km²,, matou de imediato 100 mil pessoas e continuou por muito tempo a provocar formas inauditas de sofrimento humano, vindo a causar mais de 200 mil mortes. Estava inaugurada a era do “terror catastrófico”, e não precisamente por fanáticos do islamismo...



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(C) Rue des Archives

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No segundo pós-guerra, o terrorismo de Estado deixou de ser a exceção e passou a ser a norma em certas regiões do planeta. Foi praticado em larga escala, em primeiro lugar, nas colônias francesas em luta pela independência, como Madagascar e Argélia. Na grande mídia, porém, o vocábulo “terrorismo” foi reservado apenas para a prática das formações militares irregulares, pois o que para uma nação era terrorismo, para outras era luta pela liberdade. Os bascos do ETA, os irlandeses do IRA, os “peshmergas” curdos, os palestinos de Al Fatah, os argelinos da Frente de Libertação Nacional ou os tchetchenos, mais recentemente, foram todos considerados terroristas, inclusive quando claramente lutavam pela autodeterminação de seus povos.

Por outro lado, não se qualificava de “terrorista” a ação dos “contras” financiados pelos Estados Unidos, que não poupavam meios nem violência para provocar a queda dos sandinistas da Nicarágua. Tampouco era qualificada de terrorista a política que inventou, armou e treinou Saddam Hussein para trucidar curdos e iranianos ou que armou e financiou os fundamentalistas do Talibã para que fizessem atos de terror contra os soviéticos no Afeganistão. A lista é imensa e variada: Pinochet no Chile, Videla na Argentina, Noriega no Panamá, Papa Doc no Haiti, Sukarno na Indonésia, Ferdinand Marcos nas Filipinas... No esforço de contenção do “comunismo”, ou simplesmente das lutas de libertação nacional, o “terror” virava “luta pela liberdade”.

Com o fim da União Soviética e do “comunismo” enquanto realidade estatal, os Estados Unidos tiveram que achar um novo “perigo global” que justificasse seu intervencionismo mundial, presente desde os primeiros dias do segundo pós-guerra. Foi bem antes do fatídico 11 de setembro de Bin Laden que seus think tanks prepararam as bases ideológicas da “guerra global contra o terror”, como se lê num artigo publicado em 1998 pela Foreign Affairs, influente revista do Conselho de Relações Externas dos EUA: “O terrorismo não é um fenômeno novo. No entanto, os terroristas de hoje (...) atuam em função de um conjunto de motivos muito mais amplo do que ocorria no passado. Mais sinistro ainda é o fato de que os terroristas podem ter acesso a armas de destruição maciça, entre as quais dispositivos nucleares, disseminadores de germes, gases venenosos e mesmo vírus de computadores. Outro fator novo é a dependência de quase todo o mundo em relação a uma rede frágil e quase invisível de distribuição de energia e informações. Há muito presente no repertório de cenários arrepiantes, o terrorismo catastrófico deixou de ser um horror distante para tomar-se algo que pode ocorrer a qualquer momento. Embora ainda levem a sério o terrorismo convencional, como se viu pela reação aos ataques às embaixadas no Quênia e na Tanzânia em agosto, os EUA não se encontram preparados o suficiente para a nova ameaça representada pelo “terrorismo catastrófico”. A superioridade militar americana nos campos de batalha convencionais acabou obrigando seus adversários a buscar opções não convencionais”.



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Em 1999, um relatório do Instituto Internacional de Pesquisas sobre a Paz (SIPRI), de Estocolmo, na Suécia, identificava 27 confrontos armados no mundo, fruto de rivalidades étnico-político-geograficas “manipuladas por lideranças populistas locais”. Foram listados diversos movimentos terroristas, fruto de disputas separatistas, religiosas, geográficas e por outras motivações, ao todo 30 movimentos foram detectados nos vários continentes.

Mais recentemente, de modo inédito e adaptando-se à pressão norte-americana, a ONU definiu, oficialmente, uma política “anti-terrorista” mundial. Na resolução correspondente, de 2002, assinala-se que "terrorismo é, na maioria dos casos, um ato político. Tem como propósito provocar danos dramáticos e mortais sobre civis, e criar uma atmosfera de medo, geralmente por um motivo político ou ideológico, secular ou religioso. O terrorismo busca ser um assalto contra os princípios da lei, a ordem, os direitos humanos e a resolução pacífica das disputas, sobre as quais criou-se este organismo mundial. O terrorismo não é um fenômeno unívoco, deve ser entendido à luz do contexto no qual as atividades terroristas aparecem. O terror foi usado como tática em quase todos os cantos do planeta, sem distinguir riqueza, gênero ou idade de suas vítimas, na sua maioria civis”.

A definição da ONU, no entanto, não considera como atos terroristas os bombardeios maciços que os Estados infringem a populações civis "inimigas", como aconteceu, ou ainda acontece, na ex-Iugoslávia, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina e no Líbano,.Em torno da questão do terrorismo se livra hoje uma batalha ideológica e política aguda, de cujo resultado depende em grande parte o destino das nações e dos povos, ou seja: da própria humanidade.

Osvaldo Coggiola é professor de história contemporânea da Universidade de São Paulo e doutor em história comparada das sociedades contemporâneas pela Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris, França







A ascensão dos fundamentalistas

O nascimento do islamismo radical como força política tem data: junho de 1967. Naquele mês, Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e sepultou o nacionalismo árabe, abrindo caminho para os extremistas

por Richard Lebeau *
O ano de 1967 representou uma virada nas disputas entre árabes e israelenses pelo controle da Palestina. Diante do fracasso de seus exércitos na Guerra dos Seis Dias, em julho daquele ano, os árabes se desiludiram com o nacionalismo e adotaram o islamismo como bandeira. Já os judeus ortodoxos conquistaram Jerusalém e viram nisso a confirmação divina do direito de existência do Estado de Israel. De ambos os lados, o nacionalismo laico foi substituído por um fundamentalismo religioso cada vez mais exacerbado. O conflito que deu origem a essa virada, no entanto, nada teve de sagrado. Foi fruto da tensão política entre Israel e seus vizinhos árabes. Ao norte, desde o começo dos anos 60, a fronteira com a Síria era uma região assolada por combates entre guerrilheiros árabes e colonos judeus pelo controle das colinas de Golã. A leste, a Cisjordânia, anexada pelo reino da Jordânia, era uma importante base de operações de grupos armados palestinos, como o Fatah de Yasser Arafat, que começou a lançar ataques contra Israel em janeiro de 1965. Por fim, ao sul ficavam duas regiões explosivas – a Península do Sinai e a Faixa de Gaza, no Egito – que foram temporariamente ocupadas por Israel em 1956 e a partir de então passaram a ser guardadas por uma força de paz da ONU. Após um período de relativa estabilidade, a tensão na região voltou a aumentar em meados dos anos 60. Em novembro de 1966, com o objetivo de retaliar os grupos armados palestinos, Israel lançou um grande ataque contra a Jordânia que revoltou o mundo árabe. Em abril do ano seguinte, um incidente na fronteira entre Israel e Síria levou a um sangrento combate.

O Egito, que tinha um pacto de defesa mútua com a Síria, expulsou as tropas de paz da ONU de seu território em 16 de maio de 1967 e uma semana depois fechou o estreito de Tirã para os navios israelenses. O presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, declarou então estar pronto para o combate caso o Estado hebreu invadisse a Síria.

Sob alerta vermelho, tanto árabes quanto israelenses começaram a se preparar para um conflito iminente. No dia 30 de maio a Jordânia aderiu à aliança sírio-egípcia, e na alvorada do dia 5 de junho Israel partiu para o ataque, alegando sentir-se ameaçado em suas fronteiras.

Ao fim do primeiro dia de guerra, a metade da aviação árabe havia sido destruída. Cinco dias depois as tropas egípcias, sírias e jordanianas foram derrotadas. Em menos de uma semana, o Israel triplicou seu território: o Egito perdeu Gaza e a Península do Sinai; a Síria, as colinas de Golã; e a Jordânia, a Cisjordânia. Mais simbólica ainda foi a tomada, pelos judeus, da Cidade Velha de Jerusalém, que se tornou a capital de Israel. Essa área concentra os lugares sagrados das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo.

A derrota militar minou a legitimidade das elites laicas no poder dos Estados árabes, representadas por Nasser no Egito e Nuredin Al-Atassi, na Síria. Com a morte de Nasser, em 28 de setembro de 1970, o Oriente Médio entrou em uma nova fase. O arabismo, motor da resistência à dominação ocidental, perdeu força ao se dissociar de suas raízes populares e se tornar uma ideologia oficial. Em contrapartida, a bandeira da “libertação da Palestina ocupada” dava às novas gerações um meio de contestar uma sociedade imóvel, sufocante e despótica nos países árabes.

O primeiro grande choque entre nacionalistas e ativistas palestinos se deu na Jordânia, em setembro de 1970. Foi o sangrento “Setembro Negro”, quando o rei Hussein enfrentou militarmente os militantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que haviam criado um Estado dentro do Estado naquele país.


Expulsos da Jordânia, os combatentes da OLP se refugiaram no Líbano. Enquanto isso, no Egito, os estudantes afirmavam diariamente nas ruas seu apoio aos palestinos, pressionando o presidente Anuar El-Sadat, que havia sucedido a Nasser, a enfrentar Israel.

Um dos fatores que colocaram a religião no centro dessa nova fase da resistência árabe foi a perda de Jerusalém. Chamada de Al-Qôds (“a santa”, em árabe), a cidade é um dos lugares sagrados para os muçulmanos. Antes de Meca, era para ela que rumavam os primeiros seguidores de Maomé para fazer suas preces.

Assim, depois da Guerra dos Seis Dias, muitos devotos do Islã viram na perda de Jerusalém uma intervenção divina, destinada a punir regimes impuros, não crentes, esquecidos de Deus. E então se voltaram para a religião, embalados pelas palavras de Sayyid Qutb, um dos teóricos da Irmandade Islâmica, organização fundamentalista muçulmana fundada em 1928 no Egito.

Antes de ser enforcado pelo regime de Nasser, em 1966, Qutb afirmou que a dominação do homem ocidental sobre o mundo havia chegado ao fim, e que a revolução científica havia cumprido sua função, “assim como o 'nacionalismo' e as comunidades limitadas a um território (...) É chegada a hora do islamismo.” Essa idéia deu nova esperança aos vencidos de 1967 e se transformou em arma contra o Ocidente, aliado de Israel. O islamismo se preparava para substituir o arabismo.

O canto do cisne do nacionalismo viria em 1973, com a Guerra do Yom Kippur. Em outubro daquele ano, a Síria e o Egito lançaram um ataque conjunto contra Israel para recuperar os territórios perdidos em 1967. Depois de menos de um mês de combates, as pretensões dos Estados árabes foram frustradas pela força de Israel.


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No fim desse novo conflito, o islamismo, até então reprimido por Nasser, renasceu das cinzas. Do Golfo Pérsico ao Atlântico, as multidões viam em uma vertente do islamismo praticado na Arábia Saudita, o wahhabismo, um substituto para o marxismo.

Apesar de Israel ter vencido a guerra, quem realmente saiu ganhando com o conflito foi o reino saudita, graças a uma arma extremamente eficaz: o petróleo. Para obrigar o Ocidente a pressionar Israel a aceitar um cessar-fogo, o rei saudita Faiçal “fechou as torneiras do petróleo”. O país tornou-se a derradeira muralha do mundo árabe e se impôs na cena internacional.

A opinião pública muçulmana viu no petróleo uma dádiva de Deus. No fim da guerra de 1973, o preço do barril subiu mais de 70%. A Arábia Saudita encheu seus caixas de petrodólares. Agora Faiçal era cortejado pelos grandes do mundo e adulado pelas populações árabes, que viam nele o defensor do islamismo.

Mas o mundo muçulmano não foi o único afetado pela Guerra dos Seis Dias. Em 7 de junho de 1967, as tropas israelenses chegaram ao Muro das Lamentações. Os soldados judeus se reuniram diante das ruínas do Templo de Salomão e ali oraram e cantaram.

A vitória de junho de 1967 provocaria profundas mudanças religiosas em Israel e nos Estados Unidos, onde vive a mais poderosa comunidade judaica da Diáspora. “A anexação de Jerusalém abriu caminho para o ressurgimento do misticismo (...) A própria vitória foi vista quase como um milagre, como uma confirmação praticamente divina do direito de existência de Israel” afirma o jornalista suíço Pierre Hazan, autor de 1967 – La Guerre des Six Jours (1967 – A Guerra dos Seis Dias).



A conquista de Jerusalém marcou o fim da missão dos pioneiros que fundaram o Estado de Israel. Ateus em sua maioria, os sionistas queriam fazer do novo país um cadinho onde imigrantes judeus, vindos de todo o mundo, promoveriam o nascimento de um “novo homem”. Eles cumpriram sua tarefa. Israel existia e a segurança parecia assegurada.

Esse sonho de cores socialistas do fim do século XIX nunca foi aceito pelos religiosos. Até 1967, os judeus ortodoxos eram majoritariamente anti-sionistas. Acreditavam, desde a queda do Segundo Templo (70 d.C.), que os hebreus deveriam ser um “povo de sacerdotes”, dispersos pelas nações. Eles não deveriam participar da restauração de Israel antes da chegada do Messias. Com a conquista de Jerusalém, mudaram de opinião.

Partidários do Grande Israel, religiosos e nacionalistas se recusavam a devolver sua pátria histórica, a Cisjordânia, antiga Judéia-Samaria, aos árabes. Em julho de 1967 o presidente israelense Zalman Shazar verbalizou essa convicção: “Que a mão que assinar os acordos de concessão sobre a terra de Israel seja decepada!”.

Passadas mais de duas décadas, em novembro de 1995, o extremista Ygal Amir colocou em prática a maldição de Shazar, ao assassinar Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelense que em 1993 havia assinado os acordos de paz com o líder palestino Yasser Arafat, em Washington.

Logo após a vitória de 1967, os israelenses começaram a construir colônias nos territórios ocupados. Algumas se tornaram símbolos da reconquista da terra prometida, como a cidade de Kfar Etzion, na Cisjordânia, um dos núcleos originais da imigração judaica para a Palestina. Conquistada pela Legião Árabe em 1948, foi retomada pelos judeus em 1967. A partir de 1974 se tornou o bastião do Gush Emunim (Bloco da Fé), movimento criado pelo rabino Yehuda Kook que estimula a colonização dos territórios ocupados por acreditar que essa terra pertence ao povo hebreu por determinação de Deus.

É nesse ambiente dominado pelo dogmatismo que o conflito entre árabes e israelenses continua nos dias de hoje. Um conflito no qual o arabismo e o sionismo deram lugar, a partir dos anos 70, a fundamentalistas assassinos de ambos os lados.

* Com redação História Viva

Uma encruzilhada fatal

Vizinho de países detentores de armas nucleares, o Afeganistão está no cruzamento político mais “quente” do planeta. A história milenar do país ajuda a entender como se formou o caldeirão político que por anos abrigou as principais lideranças da Al Qaeda

por Osvaldo Coggiola
De rota de intercâmbio comercial entre Império Romano, China e Índia, o Afeganistão se tornou, no século VII, zona de conquista islâmica e, mais tarde, no século XVIII, colônia britânica. Túmulo de pretensões soviéticas no século XX, esse campo milenar de conflitos acabou se transformando em uma espécie de pesadelo ocidental do século XXI.Em outubro de 2001, depois dos atentados de 11 de setembro, a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) invadiu o Afeganistão, basicamente com forças dos Estados Unidos. Está lá até hoje, em uma ofensiva adotada como prioridade na política externa do presidente americano Barack Obama. A história antiga e a recente do país, porém, indicam que é grande o perigo de um revés, de consequências globais.Em 2003, a suposta cumplicidade de Saddam Hussein com a Al-Qaeda levou os EUA, sem o aval da ONU, a invadir o Iraque. Embora o regime talibã, no Afeganistão, e o de Saddam, no Iraque, tenham sido derrubados, as duas ocupações foram se transformando em um inferno para os americanos, com fortes perdas militares, violações escancaradas do direito internacional, uso público da tortura (em Guantánamo e outras bases militares extraterritoriais) e desprestígio internacional crescente.Recém-eleito, Obama pretendeu dar uma virada política: o novo presidente anunciou a retirada dos EUA do Iraque até 2012, mas decidiu manter (e reforçar) a presença no Afeganistão. Mesmo porque o presidente afegão Hamid Karzai foi escolhido a dedo para aceitar a ocupação militar na Ásia central, e a presença americana nesse país conta com o aval da chamada “comunidade internacional”.

O país no qual Obama insiste em manter suas forças militares, porém, está situado na encruzilhada geopolítica mais “quente” do planeta. Faz fronteira com várias repúblicas da ex-União Soviética e com o Irã e a China. Outro vizinho, o Paquistão, disputa com a Índia o controle da Caxemira desde 1947, depois do fim da colonização britânica no território. Assim, os conflitos atuais pelo controle do Afeganistão são uma extensão da luta histórica entre as potências pelo controle da Ásia central e seus recursos naturais, bem como da sua posição estratégica no meio da Eurásia.

As ações dos EUA sob o governo democrata não se fizeram esperar. No início de maio de 2009, a ocupação militar no Afeganistão, que atende ao nome de “Liberdade Duradoura”, produziu uma nova ofensiva contra insurgentes na província de Farah, que destruiu várias aldeias, deixando 140 mortos, incluídas 93 crianças. No último ano do governo Bush, 2.118 civis morreram no Afeganistão (64% devido a ataques aéreos norte-americanos), uma média de seis mortes por dia, segundo dados oficiais da ONU, mas a cifra é provavelmente mais alta. 

Depois de oito anos no Afeganistão, o fracasso dos ocupantes é visível. Os talibãs operam ou dominam 75% do território, e a autoridade efetiva do governo dócil ao Ocidente não se estende além da capital, Cabul. No Paquistão, os talibãs são fortes no vale de Swat, a pouco mais de 100 km da capital, Islamabad. Os refugiados de Swat já passam de 1 milhão. A Otan nunca conseguiu fechar a fronteira entre os dois países ou impedir que os talibãs afegãos recebessem refúgio, armas, recursos e treinamento no Paquistão.

A chamada fronteira “Af-Pak”, herança das intervenções colonialistas, divide o que durante 2 mil anos foi uma região cultural, política e econômica única, a dos pashtun. Em que pese todo o investimento militar da Otan, os talibãs ressurgiram em todo o sul do Afeganistão e na fronteira e dentro do Paquistão, porque aparecem como representantes de uma reivindicação nacional pashtun diante da invasão ocidental e dos regimes dos dois países.

No Paquistão, a reivindicação dos direitos dos pashtun está originalmente ligada à luta dos camponeses pela terra, ainda hoje em mãos de uma oligarquia agrária. Os talibãs impulsionaram uma espécie de revolta dos sem-terra de Swat contra os grandes proprietários. Mas dificilmente poderiam encabeçar uma revolta nacional em um país majoritariamente laico.

Fora das zonas pashtun, os grupos islâmicos do Paquistão são um instrumento armado e apoiado pelo Exército e os serviços de inteligência locais. Obama simplesmente não pode enviar tropas dos EUA ao Paquistão e, por isso, depende dos militares desse país para combater os talibãs. Ocorre que as forças armadas paquistanesas têm suas próprias prioridades e disputas territoriais imediatas a administrar. É bom lembrar que os grupos islâmicos sempre foram encorajados a atuar como força de choque contra a Índia no conflito pela Caxemira. Sem solução nessa frente, o Exército paquistanês continuaria com essa mesma estratégia.

O Afeganistão é um Estado dividido em “feudos”. O Paquistão e a Índia são Estados detentores de armas nucleares, e o primeiro está no limiar do abismo político. Dos dois lados da fronteira “Af-Pak” campeia o vazio. A pressão dos EUA fez saltar o precário equilíbrio que existia entre os diversos componentes nacionais e étnicos desses países, em uma crise que envolve a disputa indo-paquistanesa pela Caxemira, conflito potencialmente nuclear. É nessa encruzilhada fatal que Obama embrenhou mais os EUA, sob o risco de transformar em global o conflito mais explosivo do planeta.

Pelos séculos -O Afeganistão é o produto do cruzamento de diversos povos e civilizações. A primeira unificação territorial ocorreu no século IV a.C., com um reino de tribos arianas. Em 250 a.C., formou-se um reino independente, com a afirmação de uma civilização greco-búdica, nascida da troca de influências helênicas e indianas, e com escrita própria. O império, que teve seu auge no reinado de Kanishka, tornou-se um local de passagem de grande importância no intercâmbio entre o Império Romano, a Índia e a China. As rotas das caravanas da Ásia central, em especial a rota da seda, ajudaram na difusão do budismo na China.

Quando os árabes conquistam a região, no século VII, encontraram alguma resistência à implantação do islamismo, que, contudo, se impôs definitivamente na primeira metade do século VIII. A região foi designada pelos árabes como Khorassan (país do leste). Com a descoberta do caminho marítimo para as Índias, a rota da seda deixou de ter importância, levando à decadência de Khorassan. O grupo étnico pashtun, ariano, começou a ganhar importância em relação às outras etnias.

A Inglaterra passou a dominar o subcontinente indiano depois do Tratado de Paris de 1763. Mas o Império Russo começou a investir na região, para pressionar a Índia, então sob domínio britânico. Em 1837, a Inglaterra fez uma aliança com a monarquia afegã por temer uma invasão russo-persa, e, em1839, os ingleses conquistaram o país, encontrando forte resistência nos anos que se seguiram.

Em 1842, o rei Dost Mohammed reconquistou o trono no Afeganistão, governando até 1863. Seu sucessor aproximou-se da Rússia czarista, que tinha estendido sua influência ao Turcomenistão. Em 1878, a Inglaterra invadiu novamente o Afeganistão.

A rivalidade anglo-russa havia sido uma constante na questão relativa ao Império Otomano. Com a decisão russa de expandir-se na Ásia central na década de 1880, aproximando-se assim das fronteiras da Índia, principal colônia inglesa, a Inglaterra impôs um quase protetorado ao Afeganistão (com o Tratado de Gandumak, extremamente desfavorável aos afegãos), que se constituiu assim em um Estado-tampão entre as duas potências. A tensão levou à iminência de uma guerra anglo-russa, provisoriamente sufocada.

Em 1881, os ingleses saíram do país, colocando Abdur Rahman no trono, um homem leal aceitável para ingleses e russos, que governou o Afeganistão até 1901 e foi sucedido por seu filho Habibullah. Na convenção de São Petersburgo, em 1907, a Rússia concordou que o Afeganistão ficasse fora de sua esfera de influência. Habibullah manteve a neutralidade do Afeganistão durante a Primeira Guerra Mundial, suportou o primeiro movimento pela adoção de uma constituição e foi assassinado por nacionalistas em 1919. 
Seu filho Amanullah ocupou o trono e rompeu com os tratados anteriores, provocando a terceira guerra anglo-afegã. Fez recuar os ingleses, aboliu a servidão e até tocou no estatuto da mulher, o que provocou sua queda. Com a saída dos britânicos da Índia, Daud Khan, general e primo do rei, aproximou-se da URSS, depois de resolvidas algumas questões de fronteira com o recém-formado Paquistão.

Em 1964, o Afeganistão adotou uma Constituição, de regime parlamentar (monarquia constitucional). Em 1973, Daud Kahn deu um golpe de Estado, proclamando a República, e adotou uma política de aproximação aos países muçulmanos, principalmente a Arábia Saudita. Foi deposto em abril de 1978, com a ascensão ao poder do Partido Democrático e Popular, pró-URSS.

Invasão soviética - O Afeganistão foi invadido e ocupado pela União Soviética em dezembro de 1979, que impôs Brabak Karmal no governo. Um total de 118 mil soldados soviéticos tomou o controle das principais cidades e meios de comunicação, mas não conseguiu derrotar os rebeldes mujahedin (combatentes) nas montanhas. 

Os soviéticos se retiraram em fevereiro de 1989, com um Exército desmoralizado e sem sustentação logística – sua propalada superioridade simplesmente ruiu no confronto com a guerrilha. As forças anticomunistas (incluídos os talibãs, milícia sunita da etnia pashtu) foram supridas e treinadas pelos EUA (que hoje as combatem), Arábia Saudita, Paquistão e China. 

O país padecia de enorme pobreza, de uma infraestrutura devastada e de exaustão dos recursos naturais, com 3 a 4 milhões de afegãos sofrendo de inanição. A nova fase da guerra civil teve início em 1992, quando uma aliança de movimentos guerrilheiros derrubou o regime de Najibullah, a última herança da presença soviética. As negociações para a formação de um governo de coalizão degeneraram em confrontos.

A vitória dos talibãs, islâmicos fundamentalistas, permitiu a superação rápida da regionalização, com todas as cidades importantes sob seu controle: Herat em 1995, Cabul em 1996, Mazar-i-Sharif en 1998. Cerca de 1 milhão de pessoas morreram na guerra. Outros 2,5 milhões ficaram refugiados em países vizinhos. 

O Irã ameaçou deslocar tropas em defesa da minoria xiita afegã. O governo indiano acusou os talibãs de apoiar os separatistas muçulmanos na Caxemira. A Federação Russa denunciou o envolvimento do Afeganistão com os separatistas muçulmanos da Chechênia e do Daguestão. Os EUA, que armaram os guerrilheiros islâmicos durante a invasão soviética, pressionaram os fundamentalistas afegãos para que extraditassem o saudita Osama Bin Laden, responsabilizado por ataques terroristas à embaixada na África. 
O governo fundamentalista era apoiado só por Arábia Saudita, Emirados Árabes e Paquistão. A ONU impôs sanções econômicas ao país em 1999, até que o terrorista Bin Laden, líder da Al-Qaeda, fosse entregue a um tribunal internacional.

Subsistiu a resistência ao regime talibã no centro e nordeste, comandada pelo e ex-ministro Ahmed Shah Massoud. Fracassaram, em 1999, as negociações de paz, patrocinadas pela Arábia Saudita, entre o governo fundamentalista islâmico e a Frente Islâmica Unida de Salvação de Massoud. O assassinato deste, em 9 de setembro de 2001, parecia a vitória final dos talibãs. Dois dias depois...

Pesadelo americano - Os atentados de 11 de setembro às torres gêmeas em Nova York foram atribuídos a Osama Bin Laden, o líder de Al-Qaeda protegido pelo regime talibã. Os EUA e forças aliadas, junto ao grupo afegão Aliança do Norte, lançaram uma campanha militar em 7 de outubro de 2001. Em pouco tempo, os talibãs tiveram de abandonar Cabul e as principais cidades. Os EUA bombardearam posições militares, cidades, aldeias, caçando e prendendo supostos terroristas e enviando-os para a base militar de Guantánamo, em Cuba. 

No Afeganistão, o presidente Hamid Karzai foi imposto por Washington, mas não conseguiu impor sua autoridade em um país patrulhado por tropas americanas e da Otan, com 26 milhões de habitantes e expectativa de vida de 46 anos (homens) e 45 anos (mulheres). As províncias continuaram dominadas pelos “senhores da guerra”, o Talibã reagrupou-se nas escolas islâmicas do outro lado da fronteira com o Paquistão. Onde, por sinal, foi encontrado Bin Laden e o que restou de seus partidários.

Academia do terror
Na maior parte do século XX, os “fundamentalistas islâmicos” eram grupos de estudiosos do Corão, sem maior influência política, espalhados no mundo árabe-islâmico. O termo "fundamentalista" (usuli) existe no Islã há séculos: designa, no sentido tradicional, apenas os acadêmicos da ilm al-usul, a ciência dedicada ao estudo do fiqh (direito islâmico).

O islamismo político, incluído o “fundamentalismo”, foi uma presença constante na luta política das nações árabes no século XX. Baseia-se nos símbolos tradicionais, mas o idioma e as políticas dos fundamentalismos são uma forma de ideologia contemporânea, que usa o passado com finalidades do momento e formas emprestadas das ideologias modernas.

Segundo alguns autores, o fundamentalismo mais recente foi obra do ex-secretário de Estado norte-americano John Foster Dulles. Com a derrota dos ingleses e franceses no conflito do canal de Suez, em 1956, os EUA estavam alarmados. A ascensão de Gamal Nasser, no Egito, e de outros líderes “populistas de esquerda”, no Médio Oriente, ameaçava seus interesses em relação ao petróleo.

Durante três a quatro décadas, os EUA fomentaram o fundamentalismo. As organizações fundamentalistas serviram como forças de choque de ditaduras e outros regimes patrocinados pelos americanos. Os militantes do Sarakat-para-Islã, por exemplo, foram informantes e agentes do Estado nas execuções de cerca de 1 milhão de comunistas nas mãos da ditadura de Sukharno na Indonésia, em 1965. No Egito, na Síria e em outros países islâmicos, organizações como a Akhwan-ul-Muslimeen foram usadas para desestabilizar regimes de esquerda.

O renascimento do Islã como movimento político de massas deu-se em dois eventos em 1979: a revolução iraniana e a resistência afegã contra a invasão soviética. No segundo, para se contrapor à expansão da URSS, os EUA contaram com o apoio do Paquistão e da Arábia Saudita, de população principalmente sunita, cujas elites queriam expulsar o "invasor vermelho e ateu" e contrabalançar o poder e a influência da revolução “xiita” iraniana.

No Paquistão, o grupo Jamaat-para-Islami era a ferramenta do governo para reprimir forças de esquerda. Durante o regime de lei marcial do general Zia-ul-Haq, esse grupo eliminou ativistas que lutavam contra a ditadura. Nos anos 80, os EUA financiaram os grupos da Al-Qaeda contra a URSS, no Afeganistão. Chamavam-nos de "combatentes da liberdade". 
No Afeganistão, os talibãs tomaram o poder em 1996: foram os EUA, pela mão do Paquistão e com o apoio da Arábia Saudita, que deram o sinal verde para que o grupo instalasse seu reinado de terror. Desde 1980, financiaram as escolas de treinamento nos territórios tribais. Ali se formaram gerações a serviço das chamadas Organizações Sunitas de Peshawar e, depois, dos talibãs.

Os homens saídos da “academia do terror”, montada sob a supervisão da CIA, ficaram conhecidos como “os afegãos”, embora muitos fossem árabes. E foi no modelo saudita e kuaitiano de tratamento da população feminina que o Talibã inspirou-se para tratar, bestialmente, as mulheres afegãs. – O. C.

A história da Al-Qaeda

Sinônimo de terror, a organização de Osama Bin Laden, se revelou ao mundo em 11 de setembro de 2001. Mas foi na década de 1970 que ela deu seus primeiros passos, combatendo os soviéticos com o apoio do Ocidente

por Olivier Weber
Tudo começou no Afeganistão. Em 1979, quatro dias antes do ano novo, tropas soviéticas invadiram o país vizinho e deram início a um longo conflito que duraria dez anos. No começo, a população resistiu bravamente, mas a luta era desproporcional.

O mundo ainda vivia a Guerra Fria e os países ocidentais, sob a liderança dos Estados Unidos, junto com os Estados árabes, apoiaram os mudjahidins, um exército de afegãos maltrapilhos agrupados em uma aliança de sete partidos. Armas foram enviadas em profusão e conselheiros militares, disponibilizados para colaborar com a resistência. A ajuda atingiu a cifra de 600 milhões de dólares por ano. Todo esse mar de recursos era controlado pelo exército paquistanês.

Pouco a pouco se formou uma corrente humanitária e financeira entre os países muçulmanos. Os militantes da organização Irmãos Muçulmanos - grupo egípcio fundado em 1928, considerado a semente do fundamentalismo islâmico - infiltraram essa rede, enviando voluntários. Assim, desembarcaram verdadeiras avalanches de combatentes que os afegãos chamaram de wahhabis, pela proximidade com a corrente wahhabita da Arábia Saudita - que defende, entre outros princípios, a aplicação charia, a lei islâmica, pelo Estado. Eles vinham dos países do Golfo, do Magreb e da Palestina. Criou-se uma rede internacionalista, o que nem sempre agradava aos líderes da resistência afegã, dentre os quais o comandante Ahmed Chah Massud.

Com o passar do tempo, uma visão de um fundamentalismo vigoroso, sectário e hostil ao progresso se impôs. A região transformou-se em laboratório militar e político. O objetivo final seria impor a charia nos países vizinhos, as repúblicas muçulmanas da Ásia Central, em seguida nos países do Golfo e finalmente no Magreb.



A retaguarda desse movimento estava o Paquistão. Em Peshawar, principalmente, os militantes faziam contatos à sombra de organizações caritativas como a Islam Aid ou a International Islamic Relief Organisation. Em 1988, perto do fim da invasão do Afeganistão, os combatentes árabes passaram a dispor de campos de treinamento, sobretudo em zonas tribais paquistanesas, sob a proteção do serviço secreto. E os mudjahidin conseguiram estabelecer o controle aéreo, graças aos mísseis Stinger, cedidos pela CIA em 1986, que praticamente bloqueavam por completo as operações da aviação soviética.

E eis que em um daqueles campos de treinamento apareceu um dignitário cego, de origem egípcia, Abdul Rahman. O que disse ele aos combatentes ali presentes? “Vocês têm o direito de executar outros muçulmanos, em nome da jihad. Foi o que nós fizemos no Egito, em 1981, assassinando Anuar el Sadat [presidente do Egito]”. Acabava de ser eliminado um tabu: a guerra santa podia conceber que irmãos da mesma religião fossem mortos.

Assim se formou a Al Qaeda (“A Base”): dentro da lógica do sacrifício, considerado digno de glória na medida em que servia para salvar o Islã. Nesse contexto, um militante wahhabita se destacou mais do que os outros. Trata-se de Osama Bin Laden, cidadão saudita que havia rompido com o governo de seu país por considerá-lo desrespeitoso ao Islã. Por seu carisma, veemência e bens acumulados – vinha de clã milionário que fez fortuna com a construção civil – ele conseguiu reunir diferentes organizações e passou a contar com a retaguarda armada do Paquistão. Lá, o general Hamid Gul, chefe do serviço secreto, mobilizou estudantes islâmicos, talibãs formados nas madrasa, as escolas de ensino do Corão nas zonas tribais. Uma impressionante rede financeira envolvendo comerciantes paquistaneses, os mulás, financiou o início dessa jihad.

Quando os integrantes do movimento islâmico nacionalista Talibã tomaram o poder em Cabul, em 1996, os wahhabitas viram seu sonho realizado. Todo o Afeganistão se tornaria seu campo de treino, exceção feita ao vale do Panchir, governada pelo comandante Ahmed Chah Massud, e a província do Badakhshan. O emirado islâmico afegão era especialmente maleável, em função da inexistência de uma estrutura estatal, o que convinha aos adeptos de Bin Laden.

A Al Qaeda criou então uma espécie de “cartilha” islâmica para o país e para as outras áreas de guerrilha. De seus feudos – os campos de Jalalabad e de Kandahar, além das zonas tribais –, Bin Laden e seu braço direito, o egípcio Ayman al-Zawahiri, médico de formação, financiaram o movimento talibã. Por ocasião das ofensivas lançadas contra o comandante Massud, as duas forças se uniram. Mas mesmo em simbiose parcial, os dois movimentos mantiveram suas próprias identidades. O dos talibãs pregava a pureza total na política, em especial com a instauração de um código de virtudes, controlado pelo Ministério do Vício e da Virtude. A Al Qaeda se preocupava com a dominação de uma parte ou da totalidade do país, a fim de continuar a jihad em outros cenários de operação, principalmente na Caxemira e na Ásia Central. Por vezes, os dois radicalismos coincidiam. Mas também se opunham. O regime do talebã mantinha uma certa lógica de preservar relações estáveis com a comunidade internacional, embora somente três países tenham reconhecido seu governo - o Paquistão, os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita.


Já a tática de Bin Laden era ir até as últimas conseqüências. O movimento não tinha uma unicidade, pelo contrário: era baseado em cisões internas e em compartimentalizações estanques, à imagem da guerrilha dosmudjahidin durante a guerra contra os soviéticos. A Al Qaeda funcionava como uma rede, utilizando com freqüência células adormecidas. Bin Laden e seus correligionários utilizavam meios de comunicação identificáveis, como o telefone por satélite.

Os atentados contra as embaixadas americanas de Dar es-Salam, na Tanzânia, e de Nairóbi, no Quênia, em 1998, foram o marco de uma mudança: os Estados Unidos, que atribuíam à Al Qaeda essas ações, bombardearam os campos de treino dos combatentes árabes, nas zonas tribais. À sombra do regime talibã e segura do respaldo paquistanês, a organização passou a assumir um perfil mais clandestino. Bin Laden escolheu alguns esconderijos, entre os quais uma casa próxima do aeroporto de Kandahar, nos arredores de Jalalabad. Os militantes continuavam a afluir. Muitos deles – vários milhares – foram para a Argélia, Indonésia, Paquistão, querendo dar sua contribuição. Alguns engrossariam as fileiras da Gamaa Islamiya, no Egito. Os grupos, embora obedientes, eram autônomos e tinham pouca relação direta com o epicentro da organização. Aliando essa estrutura a um excelente nível técnico dos militantes, em especial em relação ao manuseio de explosivos, a Al Qaeda tornou-se uma poderosa competência estratégica.

Dois acontecimentos colaborariam para aumentar seu prestígio. Em ambos, a comunidade internacional demonstrou sua impotência diante desses militantes. O primeiro diz respeito à destruição das imagens dos Budas de Bamyan, em março de 2001. Aquele foi um momento crucial, que ilustrou a predominância dos internacionalistas sobre a parcela moderada do movimento talibã. Depois de hesitar, o regime dos turbantes negros deu seu aval à destruição das estátuas, esculpidas entre os séculos V e VII e consideradas patrimônio da humanidade. Até mesmo a comunidade muçulmana condenou a decisão e o movimento talibã ficou mais isolado. Justamente isso que a Al Qaeda queria: o Afeganistão precisava ser separado do mundo, para poder continuar sendo um gigantesco campo de treinamento.

O segundo acontecimento, evidentemente, foi o 11 de setembro de 2001. Os atentados de Nova Iorque e Washington marcaram a grandeza e a decadência da Al Qaeda. A organização mostrou sua força, sua combatividade e sua engenhosidade. O mundo ocidental descobria, com terror, o quanto é desprotegido. Antes dos atentados, só dois agentes da CIA entendiam patchu, a língua falada nas zonas tribais paquistanesas e afegãs.


Foi então declarada a guerra contra o terrorismo global. Mais tarde, Washington ajustou o foco e admitiu, em 2006, visar somente o terrorismo islâmico. Seguiram-se os atentados de 11 de março de 2004 em Madri e de julho de 2005 em Londres, escolhidos para serem “mostrados” pelo próprio inimigo – a mídia do mundo ocidental – e pelos meios de propaganda da organização – DVD, internet, ameaças etc.

Mas, evidentemente suas redes de militantes sofreram infiltrações. Os serviços ocidentais de informação ganharam competência, em especial em termos de lingüística e contatos. Compreenderam, finalmente, que estavam diante de uma guerra de longa duração, irregular, de fraca intensidade, mas capaz de desestabilizar bruscamente vários países por meio de atentados, da infiltração e de células inoperantes.

Hoje assistimos a uma radicalização e, ao mesmo tempo, a uma modernização da organização terrorista. Apesar de alguns líderes terem sido presos, entre eles Khaled Cheikh Mohammed, que está na base americana de Guantánamo, em Cuba, o movimento tem recorrido a técnicas mais modernas, entre elas a internet.

Na verdade, a Al Qaeda se beneficiou de um paradoxo: foi transformada em obsessão fantasmagórica pelo Ocidente, que ao demonizá-la contribui para “defini-la”. A invasão do Iraque, em março de 2003, só veio reforçá-la. Em primeiro lugar, surgiram movimentos autônomos, entre os quais o de Abu Mussab al Zarqaui, com seu exército islâmico no Iraque, que jurou obediência à organização. Um grupo tão radical que Al Zawahiri, braço direito de Bin Laden, preferiu se distanciar, para não se responsabilizado pelo prejuízo de possíveis massacres civis. Em segundo lugar, o enfraquecimento das forças americanas no Iraque permitiu que fosse relançada a guerrilha no Afeganistão – onde os Estados Unidos também mantêm tropas –, em efeito dominó. Por último, a habilidade e o discurso dúbio do regime iraniano contribuem para ampliar o poder da Al Qaeda: o país de governo xiita apóia diferentes movimentos de resistência, inclusive sunitas. No Paquistão, a Al Qaeda conta com a fraqueza do poder, sitiado entre sua aliança com Washington, desde o 11 de setembro, e o jogo dos contra-poderes islamistas, notadamente no interior do serviço secreto paquistanês, do qual duas células continuam independentes, a da Caxemira e a do Afeganistão. Assim, o Paquistão continua a servir de terreno de retaguarda para as operações em território afegão, para desgosto de seu presidente, Pervez Musharraf.

A conclusão é que seis anos depois dos atentados nos Estados Unidos, a comunidade internacional ainda não encontrou os meios de lutar contra os exércitos clandestinos da organização criminosa.


Olivier Weber é jornalista, escritor e co-organizador da Expedição Científica e Cultural Paris-Cabul, realizada com o apoio da Unesco entre 2003 e 2004