O nascimento do islamismo radical como força política tem data: junho de 1967. Naquele mês, Israel venceu a Guerra dos Seis Dias e sepultou o nacionalismo árabe, abrindo caminho para os extremistas
por Richard Lebeau *
O ano de 1967 representou uma virada nas disputas entre árabes e israelenses pelo controle da Palestina. Diante do fracasso de seus exércitos na Guerra dos Seis Dias, em julho daquele ano, os árabes se desiludiram com o nacionalismo e adotaram o islamismo como bandeira. Já os judeus ortodoxos conquistaram Jerusalém e viram nisso a confirmação divina do direito de existência do Estado de Israel. De ambos os lados, o nacionalismo laico foi substituído por um fundamentalismo religioso cada vez mais exacerbado. O conflito que deu origem a essa virada, no entanto, nada teve de sagrado. Foi fruto da tensão política entre Israel e seus vizinhos árabes. Ao norte, desde o começo dos anos 60, a fronteira com a Síria era uma região assolada por combates entre guerrilheiros árabes e colonos judeus pelo controle das colinas de Golã. A leste, a Cisjordânia, anexada pelo reino da Jordânia, era uma importante base de operações de grupos armados palestinos, como o Fatah de Yasser Arafat, que começou a lançar ataques contra Israel em janeiro de 1965. Por fim, ao sul ficavam duas regiões explosivas – a Península do Sinai e a Faixa de Gaza, no Egito – que foram temporariamente ocupadas por Israel em 1956 e a partir de então passaram a ser guardadas por uma força de paz da ONU. Após um período de relativa estabilidade, a tensão na região voltou a aumentar em meados dos anos 60. Em novembro de 1966, com o objetivo de retaliar os grupos armados palestinos, Israel lançou um grande ataque contra a Jordânia que revoltou o mundo árabe. Em abril do ano seguinte, um incidente na fronteira entre Israel e Síria levou a um sangrento combate.
O ano de 1967 representou uma virada nas disputas entre árabes e israelenses pelo controle da Palestina. Diante do fracasso de seus exércitos na Guerra dos Seis Dias, em julho daquele ano, os árabes se desiludiram com o nacionalismo e adotaram o islamismo como bandeira. Já os judeus ortodoxos conquistaram Jerusalém e viram nisso a confirmação divina do direito de existência do Estado de Israel. De ambos os lados, o nacionalismo laico foi substituído por um fundamentalismo religioso cada vez mais exacerbado. O conflito que deu origem a essa virada, no entanto, nada teve de sagrado. Foi fruto da tensão política entre Israel e seus vizinhos árabes. Ao norte, desde o começo dos anos 60, a fronteira com a Síria era uma região assolada por combates entre guerrilheiros árabes e colonos judeus pelo controle das colinas de Golã. A leste, a Cisjordânia, anexada pelo reino da Jordânia, era uma importante base de operações de grupos armados palestinos, como o Fatah de Yasser Arafat, que começou a lançar ataques contra Israel em janeiro de 1965. Por fim, ao sul ficavam duas regiões explosivas – a Península do Sinai e a Faixa de Gaza, no Egito – que foram temporariamente ocupadas por Israel em 1956 e a partir de então passaram a ser guardadas por uma força de paz da ONU. Após um período de relativa estabilidade, a tensão na região voltou a aumentar em meados dos anos 60. Em novembro de 1966, com o objetivo de retaliar os grupos armados palestinos, Israel lançou um grande ataque contra a Jordânia que revoltou o mundo árabe. Em abril do ano seguinte, um incidente na fronteira entre Israel e Síria levou a um sangrento combate.
O Egito, que tinha um pacto de defesa mútua com a Síria, expulsou as tropas de paz da ONU de seu território em 16 de maio de 1967 e uma semana depois fechou o estreito de Tirã para os navios israelenses. O presidente egípcio, Gamal Abdel Nasser, declarou então estar pronto para o combate caso o Estado hebreu invadisse a Síria.
Sob alerta vermelho, tanto árabes quanto israelenses começaram a se preparar para um conflito iminente. No dia 30 de maio a Jordânia aderiu à aliança sírio-egípcia, e na alvorada do dia 5 de junho Israel partiu para o ataque, alegando sentir-se ameaçado em suas fronteiras.
Ao fim do primeiro dia de guerra, a metade da aviação árabe havia sido destruída. Cinco dias depois as tropas egípcias, sírias e jordanianas foram derrotadas. Em menos de uma semana, o Israel triplicou seu território: o Egito perdeu Gaza e a Península do Sinai; a Síria, as colinas de Golã; e a Jordânia, a Cisjordânia. Mais simbólica ainda foi a tomada, pelos judeus, da Cidade Velha de Jerusalém, que se tornou a capital de Israel. Essa área concentra os lugares sagrados das três grandes religiões monoteístas: judaísmo, islamismo e cristianismo.
A derrota militar minou a legitimidade das elites laicas no poder dos Estados árabes, representadas por Nasser no Egito e Nuredin Al-Atassi, na Síria. Com a morte de Nasser, em 28 de setembro de 1970, o Oriente Médio entrou em uma nova fase. O arabismo, motor da resistência à dominação ocidental, perdeu força ao se dissociar de suas raízes populares e se tornar uma ideologia oficial. Em contrapartida, a bandeira da “libertação da Palestina ocupada” dava às novas gerações um meio de contestar uma sociedade imóvel, sufocante e despótica nos países árabes.
O primeiro grande choque entre nacionalistas e ativistas palestinos se deu na Jordânia, em setembro de 1970. Foi o sangrento “Setembro Negro”, quando o rei Hussein enfrentou militarmente os militantes da Organização para a Libertação da Palestina (OLP), que haviam criado um Estado dentro do Estado naquele país.
Expulsos da Jordânia, os combatentes da OLP se refugiaram no Líbano. Enquanto isso, no Egito, os estudantes afirmavam diariamente nas ruas seu apoio aos palestinos, pressionando o presidente Anuar El-Sadat, que havia sucedido a Nasser, a enfrentar Israel.
Um dos fatores que colocaram a religião no centro dessa nova fase da resistência árabe foi a perda de Jerusalém. Chamada de Al-Qôds (“a santa”, em árabe), a cidade é um dos lugares sagrados para os muçulmanos. Antes de Meca, era para ela que rumavam os primeiros seguidores de Maomé para fazer suas preces.
Assim, depois da Guerra dos Seis Dias, muitos devotos do Islã viram na perda de Jerusalém uma intervenção divina, destinada a punir regimes impuros, não crentes, esquecidos de Deus. E então se voltaram para a religião, embalados pelas palavras de Sayyid Qutb, um dos teóricos da Irmandade Islâmica, organização fundamentalista muçulmana fundada em 1928 no Egito.
Antes de ser enforcado pelo regime de Nasser, em 1966, Qutb afirmou que a dominação do homem ocidental sobre o mundo havia chegado ao fim, e que a revolução científica havia cumprido sua função, “assim como o 'nacionalismo' e as comunidades limitadas a um território (...) É chegada a hora do islamismo.” Essa idéia deu nova esperança aos vencidos de 1967 e se transformou em arma contra o Ocidente, aliado de Israel. O islamismo se preparava para substituir o arabismo.
O canto do cisne do nacionalismo viria em 1973, com a Guerra do Yom Kippur. Em outubro daquele ano, a Síria e o Egito lançaram um ataque conjunto contra Israel para recuperar os territórios perdidos em 1967. Depois de menos de um mês de combates, as pretensões dos Estados árabes foram frustradas pela força de Israel.
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No fim desse novo conflito, o islamismo, até então reprimido por Nasser, renasceu das cinzas. Do Golfo Pérsico ao Atlântico, as multidões viam em uma vertente do islamismo praticado na Arábia Saudita, o wahhabismo, um substituto para o marxismo.
Apesar de Israel ter vencido a guerra, quem realmente saiu ganhando com o conflito foi o reino saudita, graças a uma arma extremamente eficaz: o petróleo. Para obrigar o Ocidente a pressionar Israel a aceitar um cessar-fogo, o rei saudita Faiçal “fechou as torneiras do petróleo”. O país tornou-se a derradeira muralha do mundo árabe e se impôs na cena internacional.
A opinião pública muçulmana viu no petróleo uma dádiva de Deus. No fim da guerra de 1973, o preço do barril subiu mais de 70%. A Arábia Saudita encheu seus caixas de petrodólares. Agora Faiçal era cortejado pelos grandes do mundo e adulado pelas populações árabes, que viam nele o defensor do islamismo.
Mas o mundo muçulmano não foi o único afetado pela Guerra dos Seis Dias. Em 7 de junho de 1967, as tropas israelenses chegaram ao Muro das Lamentações. Os soldados judeus se reuniram diante das ruínas do Templo de Salomão e ali oraram e cantaram.
A vitória de junho de 1967 provocaria profundas mudanças religiosas em Israel e nos Estados Unidos, onde vive a mais poderosa comunidade judaica da Diáspora. “A anexação de Jerusalém abriu caminho para o ressurgimento do misticismo (...) A própria vitória foi vista quase como um milagre, como uma confirmação praticamente divina do direito de existência de Israel” afirma o jornalista suíço Pierre Hazan, autor de 1967 – La Guerre des Six Jours (1967 – A Guerra dos Seis Dias).
A conquista de Jerusalém marcou o fim da missão dos pioneiros que fundaram o Estado de Israel. Ateus em sua maioria, os sionistas queriam fazer do novo país um cadinho onde imigrantes judeus, vindos de todo o mundo, promoveriam o nascimento de um “novo homem”. Eles cumpriram sua tarefa. Israel existia e a segurança parecia assegurada. Esse sonho de cores socialistas do fim do século XIX nunca foi aceito pelos religiosos. Até 1967, os judeus ortodoxos eram majoritariamente anti-sionistas. Acreditavam, desde a queda do Segundo Templo (70 d.C.), que os hebreus deveriam ser um “povo de sacerdotes”, dispersos pelas nações. Eles não deveriam participar da restauração de Israel antes da chegada do Messias. Com a conquista de Jerusalém, mudaram de opinião. Partidários do Grande Israel, religiosos e nacionalistas se recusavam a devolver sua pátria histórica, a Cisjordânia, antiga Judéia-Samaria, aos árabes. Em julho de 1967 o presidente israelense Zalman Shazar verbalizou essa convicção: “Que a mão que assinar os acordos de concessão sobre a terra de Israel seja decepada!”. Passadas mais de duas décadas, em novembro de 1995, o extremista Ygal Amir colocou em prática a maldição de Shazar, ao assassinar Yitzhak Rabin, primeiro-ministro israelense que em 1993 havia assinado os acordos de paz com o líder palestino Yasser Arafat, em Washington. Logo após a vitória de 1967, os israelenses começaram a construir colônias nos territórios ocupados. Algumas se tornaram símbolos da reconquista da terra prometida, como a cidade de Kfar Etzion, na Cisjordânia, um dos núcleos originais da imigração judaica para a Palestina. Conquistada pela Legião Árabe em 1948, foi retomada pelos judeus em 1967. A partir de 1974 se tornou o bastião do Gush Emunim (Bloco da Fé), movimento criado pelo rabino Yehuda Kook que estimula a colonização dos territórios ocupados por acreditar que essa terra pertence ao povo hebreu por determinação de Deus. É nesse ambiente dominado pelo dogmatismo que o conflito entre árabes e israelenses continua nos dias de hoje. Um conflito no qual o arabismo e o sionismo deram lugar, a partir dos anos 70, a fundamentalistas assassinos de ambos os lados. |
* Com redação História Viva

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